
Por otocantins.com.br 08/04/2026 07h51 Atualizado há 13 horas Artigo de opinião – Silene Borges – Jornalista Tem dias em que a notícia chega pronta, mastigada, quase pedindo apenas publicação. E é exatamente nesses dias que mais desconfio. Hoje, no meio de uma conversa sobre o meio politico , um colega soltou a frase como quem não quer nada: “se o jabuti está em cima da árvore, alguém o colocou lá”. Sorri. Não pela graça da imagem embora ela seja ótima, mas pela precisão cirúrgica com que ela define o nosso ofício. Porque jabuti não sobe em árvore. E notícia, muitas vezes, também não nasce onde parece ter nascido. No jornalismo, a gente aprende cedo a lidar com versões. Mas é com o tempo e com algumas cicatrizes que entendemos o peso das intenções. Nem tudo que chega até nós é espontâneo. Nem todo destaque é merecido. Nem toda urgência é real. Há mãos invisíveis empurrando pautas, construindo narrativas, escolhendo quem sobe… e quem fica no chão. E aí entra o papel do jornalista que não se contenta com o óbvio. Olhar um jabuti no alto da árvore e achar bonito é fácil. Difícil e necessário é perguntar: quem trouxe? por quê? e a quem isso serve? Talvez seja esse o ponto em que o jornalismo deixa de ser apenas relato e passa a ser compromisso. Compromisso com o que está por trás, com o que não foi dito, com o que tentaram fazer parecer natural. Porque, no fim das contas, a verdade raramente grita. Ela sussurra. E exige de nós mais do que pressa — exige atenção. Hoje, saí da redação com essa imagem na cabeça: um jabuti, quieto, deslocado, no alto de uma árvore. E a certeza de sempre: quando algo parece fora do lugar, não é coincidência. É pauta. É preciso investigar. Silene Borges – Jornalista Pioneira





