
Uma grande operação da Polícia Civil do Tocantins revelou um suposto esquema de desvio milionário de recursos públicos da Prefeitura de Tocantinópolis destinados ao Tocantinópolis Esporte Clube, tradicional equipe de futebol da região norte do estado. O prejuízo estimado aos cofres públicos ultrapassa R$ 5,1 milhões. A investigação aponta que repasses financeiros realizados desde 2009 até 2024 teriam sido utilizados de forma irregular, com suspeitas de falsificação de documentos, movimentações bancárias atípicas e redistribuição de valores para contas pessoais de dirigentes e terceiros ligados ao esquema. Atualmente, a prefeitura é administrada pelo prefeito Fabion Gomes (PL). Antes dele, o município foi governado por seu sobrinho, o ex-prefeito Paulinho Gomes. Esquema teria três frentes de atuação De acordo com a Polícia Civil do Tocantins, as investigações apontam que o suposto esquema era estruturado em três eixos principais. O primeiro consistiria na autorização de repasses de recursos públicos ao clube por gestores municipais, mesmo diante de decisões reiteradas do Tribunal de Contas do Estado do Tocantins (TCE/TO) que já apontavam a ilegalidade dessas transferências. O segundo eixo envolveria o uso da entidade esportiva como possível estrutura de fachada, com a suposta falsificação ideológica de documentos, como atas, contratos e recibos, para conferir aparência de legalidade às transferências financeiras que, segundo os investigadores, não teriam relação comprovada com atividades esportivas ou interesse público. Já o terceiro eixo investigado diz respeito à redistribuição e ocultação dos valores desviados. Após serem transferidos para contas da entidade esportiva, os recursos teriam sido pulverizados para contas pessoais de dirigentes e terceiros, além de saques frequentes em dinheiro em espécie — prática considerada típica em esquemas de lavagem de dinheiro para dificultar o rastreamento da origem dos recursos. Movimentações suspeitas detectadas pelo Coaf As apurações tiveram início após relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontarem movimentações bancárias suspeitas e incompatíveis com as atividades esportivas do clube. A análise preliminar indicou um intenso fluxo de recursos nas contas ligadas à entidade, com operações financeiras consideradas atípicas, o que levou à abertura do inquérito policial. Irregularidades já haviam sido apontadas pelo TCE Segundo a investigação, o fluxo de repasses investigado remonta ao ano de 2009 e teria se mantido de forma contínua até 2024, atravessando diferentes gestões municipais. A irregularidade desse tipo de transferência já havia sido apontada anteriormente pelo Tribunal de Contas do Estado do Tocantins. No Acórdão nº 638/2009, o órgão considerou irregular a prestação de contas referente ao exercício de 2007, destacando a ausência de autorização legal para o repasse de recursos públicos ao clube esportivo. Mesmo diante dessa decisão, segundo os investigadores, os repasses teriam continuado ao longo dos anos. Operação cumpre mandados e apreende documentos A Operação 2º Tempo, deflagrada nesta quinta-feira (12/03), resultou no cumprimento de oito mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados. As equipes estiveram em residências de suspeitos, setores da Prefeitura de Tocantinópolis e na sede do clube esportivo, onde foram recolhidos documentos administrativos, celulares, computadores e registros contábeis que poderão reforçar as provas da investigação. Ao todo, 34 policiais civis, entre investigadores e peritos, participaram da ação. Um dos investigados é policial militar da ativa, motivo pelo qual a Polícia Militar do Tocantins também prestou apoio no cumprimento das ordens judiciais. Nome da operação faz referência ao futebol O nome Operação 2º Tempo faz referência ao momento decisivo de uma partida de futebol. Segundo os investigadores, a denominação simboliza uma nova etapa no enfrentamento a esquemas ilícitos que teriam utilizado o esporte — uma das maiores paixões nacionais — como instrumento para práticas ilegais. Força-tarefa policial A ofensiva policial foi coordenada pela 1ª Divisão de Repressão ao Crime Organizado da Polícia Civil do Tocantins e contou com o apoio de diversas unidades especializadas da corporação, entre elas a Diretoria de Repressão ao Crime Organizado do Tocantins (Dracco), o Grupo de Operações Táticas Especiais do Tocantins (Gote), a Divisão Especializada de Repressão a Narcóticos do Tocantins (Denarc), a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa de Gurupi (DHPP-Gurupi) e a Divisão de Repressão a Crimes Contra a Ordem Tributária do Tocantins (DRCOT). As equipes atuaram de forma integrada no cumprimento das ordens judiciais e na coleta de provas que poderão aprofundar a apuração do suposto esquema. Combate à corrupção A Polícia Civil destacou que o combate a crimes contra a administração pública é fundamental para preservar a moralidade administrativa e proteger o patrimônio público. A instituição afirmou ainda que as investigações continuam e que novas fases da operação não estão descartadas, caso surjam novos elementos ao longo da análise do material apreendido.





